A sul do Ibirapuera


Dois anjos

Meus anjos da guarda são dois. Um fala agora, o outro depois.

 

Este que agora fala e toma a mão e a caneta, garante um momento justo, com texto de opereta e junta rimas a esmo ou aforismos vulgares, que vêm de tantos lugares que nem os anjos se lembram, mas tocam em frente o processo.

- Escreva-se outro verso!

E minha mão obedece cegamente, comportada, e mesmo que não diga nada, no fim o texto me intriga.

 

O outro anjo me escuta, pondera, discute comigo, aconselha como amigo a escolher cada palavra, evitando o perigo de registrar cegamente as coisas que vêm à mente e comprometem depois.

 

Eu tenho muitos amigos, mas anjos da guarda, só dois.

 

Um deles volta à carga e me mantém escrevendo e fumando e bebendo. Sou só o seu instrumento de mensagens imediatas, de conclusões provisórias que, se não contam histórias, também não são um lamento.

 

Mais uma vez, protegido, retorno à consciência. Deus salve a providência de me dar tais companhias. Tenho uma história simples, uma família normal, tenho amigos, colegas e um afeto especial. Tenho coisas diferentes, às vezes incompatíveis, milhares de neurônios e um violão meio velho que comigo se indispôs.

 

Tenho um milhão de motivos, mas, anjos da guarda, só dois.

 

Rogo pragas criativas: “pedaço de asno”, xingo. No sábado ou no domingo e às vezes pela semana, digo que vou à merda e ofereço carona. Mas me comporto direito. Se me falhar a caneta, levanto e vou à gaveta. Paro no bar, me abasteço, me dou tudo o que mereço e não reclamo depois.

 

Eu tenho muitos defeitos, mas anjos da guarda, só dois.

 

Me rendo à fadiga do corpo, à meditação necessária. Paro, limpo a área e vou descansar, finalmente. Acendo o último cigarro, procuro o último gole. Viver assim, não é mole, mas tudo sempre se encontra no lugar onde se pôs.

 

Vamos dormir. Boa noite

Eu e meus anjos. Os dois.



Escrito por Ruy Villani às 23h47
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Janela

Tenho muito para ver desta janela que aponta p’ronde, um dia, foi sua casa. Tanta coisa pra pesar. Que sorte a sua, que ainda pode ter a imaginação com asas e, alheia ao meu olhar, voa com ela.

 

Me distraio olhando aqui, desta janela. Aviões vêm perfurar o céu opaco, feito estrelas de artifício, sorrateiras, que, na falta das estrelas verdadeiras, me permitem relembrar o brilho delas.

 

Tenho muito para ver aqui do alto. Muita coisa p’ra pensar enquanto velo a luz mortiça, tanto mais quanto mais longe, e o silêncio que me bate igual martelo. Sem escolha, finjo a calma de um monge.

 

E você que hoje vê, da sua janela, essa manta feita só de luzes frias, uma imitação do céu, astros urbanos, só vigia, como quem olha ao acaso, a mortalha bem bordada dos meus planos.



Escrito por Ruy Villani às 08h43
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Aprendizado

Foi o meu melhor aprendizado. Aprendi a entender ao invés de supor, a ler ao invés de compor. Aprendi a pluralidade que trago em mim, a multiplicidade que não vê fim, a realidade que é, ainda assim, surpreendente.

Aprendi a olhar de frente e ver, a um só tempo, a alma da gente abraçada e espreguiçada, distendida e recriada, da forma como Deus recriaria o universo se, para tal, se dispusesse.

Ah, se o criador fosse criativo, criaria o universo a partir de uma cópula infinita, feliz, bonita, sem vergonhas ou vícios. Uma entrega total das energias.

Criaria os dias sem horas, as horas sem pontualidade. Criaria nem tempo nem idade, mas a mescla dessa tola experiência. Fundiria religião e ciência, ansiedade e paciência, ousadia e prudência.

O criador, meu amor, nos criaria neste exato momento, quando me sento à sua frente e, a par de todos os desejos, somos apenas parceiros, talvez os primeiros a chegar nessa maratona insana.

Posso, agora, dizer que te amo.



Escrito por Ruy Villani às 00h11
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Acorde

Na cor do acorde

que acorda da corda

a viola viola

o silêncio cego.



Escrito por Ruy Villani às 15h58
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Juízo final - Parte 1

Uma hora ia chegar a hora. Chegou.

Aqui estou pensando o que possa ser o juízo final, ou se afinal este é o final mesmo.

Só vejo um monte de gente. O que me faz ter certeza que não estou na 25 de Março é que não tem ninguém vendendo nada. Nenhum camelô, nenhum chinesinho tentando me empurrar camisetas ou óculos. Nada! Nem esmolista de malabares parado na esquina. Aliás, nem esquina. Vai ver é por isso.Nem mesmo sei se morri ou do que. Mas estou aqui esperando a vez.

A fila anda lenta. Alguns esbravejam na base do “onde já se viu?... aqui de novo?” Até parece que sabem onde estão. Outros são mais conformados e aguardam a vez.

Imaginei que no fim da fila, em algum guichê celestial, haveria um velho de túnica e barbas brancas a fazer uma revisão da minha vida. Tento rever a memória. Tenho alguns pecados altamente justificáveis. Outros, posso dizer, foram inevitáveis. Mas de tudo que consigo lembrar ainda posso explicar, se me derem tempo. 

Em volta uma multidão. Sei, intuitivamente, que todos passamos para cá. Honestamente, não sei como vim, mas sei que cheguei aqui. Não sinto dores, falta de ar, não estou sangrando... nada. Estamos aqui em situação nova. Uns mais conformados, outros surpresos, perplexos e atrapalhados. Mas todos temos a consciência de que, embora nos faltem as trombetas, estamos na hora do juízo. 

Honestamente eu esperava algo mais cenográfico, mais “Spielberg”. Mas aqui é apenas uma rua, sem pavimento, sem casario e sem referência na memória. Se neste momento não nos falta memória, neste lugar não temos surpresas, nem faltas nem excessos.

Chega a minha vez e sou atendido. Nem arcanjos nem querubins de bundinha rósea. Tudo isso era apenas a parte do marketing. A realidade aqui é muito real. 

O interlocutor não tem um livro aberto na página da minha vida. Apenas me olha e faz umas perguntinhas toscas.

- Você já sabe o que faz aqui?

- Sei, sim senhor...

_ Não sou o senhor! Me chame de...pensando melhor, não me chame!

_Ok. E agora o que é que eu faço?

- Nada. Vc escolhe: Céu ou Inferno?

- Como assim... eu escolho? Tenho que escolher isso? Aprendi na vida que se o balanço fosse positivo seria céu, caso contrário as trevas

- Que trevas, cara? É tudo a mesma coisa. São apenas suas escolhas, sempre SUAS escolhas.

- Mas... peraí! Eu morri e vim para cá. Vim para ser julgado e destinado ao céu ou ao inferno. Minhas opiniões pessoais não deveriam valer nada.

Com uma cara de tédio, o funcionário do além dá uma bufada, pega um cigarro, dá uma tragada longa e gostosa, recupera a paciência e me diz:

- O único julgamento é o seu próprio. Agora vc é que escolhe: Vamos lá. Céu ou inferno?



Escrito por Ruy Villani às 19h41
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Juízo final, Parte 2

Ainda tímido, mas com a ficha caindo um pouco, arrisco uma perguntinha:

- Qual é a diferença?

Mais entediado que antes, o cidadão se ajeita na cadeira e responde:

- A diferença é o que vc quer. Lá embaixo vc fez paraíso do que quis fazer e inferno do que quis. Lembra de quando vc projetava lojas?

- Claro!

- Vc fez disso seu inferno. Decidiu que não gostava e arranjou um monte de argumentos para se fazer infeliz, certo?

- Bem...

-Nem bem nem mal. Vc escolheu que aquilo o faria infeliz. Sabia que muita gente foi feliz fazendo aquele trabalho? E vc sobrevieveu com isso, não é?

- É...

- É mesmo. É assim mesmo. Vc escolheu o que o faria feliz ou não, agora vai escolher se quer céu ou inferno.

- Mas, cavalheiro... de tudo o que aprendi, céu é bom, inferno é mau... não estou entendendo. Qualquer imbecil escolheria o céu.

Mais uma bufada de tédio, como se eu fosse (e era mesmo) o trilionésimo a lhe fazer a mesma pergunta. Eu não queria estar no lugar desse cara.

- OK! Tem gente que prefere inferno. Lá se pode contestar tudo porque nada é harmonia, tudo é contraste. E tem gente que só vive bem reclamando, reivindicando, exigindo o impossível. É o seu caso?

- Não sei... realmente não sei. De fato tem coisas que merecem ser contestadas, e isso nos faz bem, nos faz sentir vivos.

- Então, vai para a paz eterna ou p´ra boa briga? Eu tenho muita gente para atender por aqui, não dá p’ra ficar te explicando o que vc já deveria ter aprendido. Céu ou inferno?

- Posso fazer só mais uma perguntinha?

- Só mais uma. Depois se manda!

- Onde a fila é menor?



Escrito por Ruy Villani às 19h37
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Outono

Fico feliz quando o clima esfria. Quando o outono se apresenta, e o clima se amena, vale a pena. O frio me aquece.

Fico feliz na têmpera amena da temperatura que me atura, me depura, como se poucos graus fossem melhores que muitos.

Parece que é clima para abraço. O calor excessivo atravessa o passo e me faz menos que lascivo, apenas um fracasso. Calor demais só se vier de dento. De fora, calor me rubora, me põe p’ra fora, me expulsa, me limita.

O clima ameno me imita e assim me faz melhor, temperado, um espectro melhorado de mim, sem exageros, sem zelos formais ou anormais. Neste clima amo mais e com mais serenidade. Outono é a minha idade, outono é o meu momento.

Nada melhor que um clima equilibrado para se ver melhorado o que se é, o que se foi, o outro lado do mesmo lado em que sempre estivemos.



Escrito por Ruy Villani às 23h43
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Amigos, me dêm um tempo

Lucas chegou. Nem pensar em escrever.

Só penso em amar essa criaturinha, não mais que amar.



Escrito por Ruy Villani às 21h17
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O que deu nome ao blog

Amigos. Venho acalentando esse texto há algum tempo. Não o considero completo, mas aqui vai.

A sul do Ibirapuera estou desde outra era. De quando o parque Ibirapuera, ainda não era.

Onde nasci era longe, era terra repisada, a poucos minutos daqui.

Era estéril, fabril, viciada, cheia de gente arraigada em sabedoria de rua pavimentada.

Vim p’ro mato, p’ra sul do Ibirapuera, p’ra perto do Aeroporto, p’ra longe dos campos de várzea.

Vi nascer o parque. Fui à sua inauguração. Em termos de arquitetura e estética, conheci minha primeira emoção. O parque até hoje é uma referência, nascida da inocência do que foi visto e desenvolvida na teoria do que foi aprendido no curso de arquitetura. A beleza do parque é simples, é pura como era pura a visão de quem o via pela primeira vez. A primeira vez de nós, do parque e minha. Ele também me via espantado.

Cresci e criei raízes a sul, sempre a sul, onde o cheiro das ruas era de mato e flores, não de fuligem. Deixei de aprender as malandragens da Zona Leste, onde os espertos e vividos viviam. Deixei de respirar a fuligem das fábricas de sei lá o que, das tecelagens, das malhações de judas e do fazer e soltar balões para vir ver os balões, sempre fascinantes, de baixo, de a sul.

O cheiro do mato e o coachar dos sapos no brejo de Moema, à época Indianópolis, me foram companhia das noites estreladas no terraço de casa. Ruas de terra, sem iluminação, sem guias ou sarjetas, sem calçadas, sem nada. Apenas minha infância a se desenvolver como pudesse, sob o medo que sentia minha mãe, fora de seu território, sob a coragem do pai, desbravando o bairro do futuro.

A sul do Ibirapuera cresci, dentro das oportunidades e das limitações peculiares ao local. É aqui, pouco a sul, que me reconheço.

Quando estou a caminho de casa, pela via arterial, há um ponto onde sei que cheguei. A atmosfera já é diferente, é meu lar, minha casa.

Tantas outras coisas me fizeram gostar de sul. Fujo da linha do Equador, quero o tempero. Fujo dos pólos por serem frios em exagero. Os climas temperados me são mais afáveis, com seu pouco de frio e calor, um exemplo melhor de humor balanceado.

Por isso fico aqui, a sul do Ibirapuera, lugar que me tempera, que me adota e acarinha.

O tempo passou depressa demais, a cidade cresceu p’ra cima demais, enriqueceu e empobreceu demais. Aqui nasceu gente além da conta, chegou gente além da conta, e se cospe neste chão de onde se tira o pão, além da conta.  

Em meu terço de ateu, rezo mais uma vez, passo nos dedos outra conta. Se a realidade afronta, a sul do Ibirapuera o tempo não conta.   

 



Escrito por Ruy Villani às 21h07
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De repente

De repente, nós olhamos ao redor

Sem surpresa, sem saudade, sem noção

Houve um tempo em que se olhava p’ras estrelas

Hoje a gente mal conhece o próprio chão.

 

Os olhares, cada dia mais cansados

Nossos olhos já não sabem nem chorar

Quem olhava igual Quixote p’ros moinhos

Esqueceu como fazia p’ra sonhar.

 

Nossos sonhos, que um dia tão imensos

De imagem sedutora e multicor

Já não passam de figuras apagadas,

São nem sombra do que um dia se sonhou

 

Vai o tempo, conduzido pela sorte

Foi-se a música e levou consigo a voz

Tanta coisa indecifrada, indefinível,

Perguntando: Afinal, quem fomos nós?

 



Escrito por Ruy Villani às 20h18
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Simplicidade

Quero adotar a postura da simplicidade.

Não sei se a ingênua, como os franciscanos,

ou a natural, como os indios,

ou a instintiva, como os insetos,

ou a formal, como Mies Van Der Rohe

oua oriental, como os tibetanos,

ou a honesta, como as crianças,

ou a infantil, como os honestos,

ou a deliberada, como os bandidos,

ou a ideológica, como os guevaras,

ou a passional, como Beethoven,

ou a musical, como Philip Glass,

ou a industrial, como a Bauhaus,

ou a estrutural, como as abelhas,

ou a conceitual, como os nórdicos,

ou a dietética, como os vegetarianos,

ou a indumentária, como a nudez,

ou a teológica, como Jesus,

ou a literária, como o Reader's Digest

ou a mecânica, como o Fusca,

ou a sábia, como Salomão,

ou a política, como Gandhi,

ou a minha própria, como for possível

ou a acidental, como o fim da página.



Escrito por Ruy Villani às 01h13
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Aos cacos

Ah, se me recolho os cacos

E faço deles um mosaico

Há muito por manter

Há muito por quebrar

Nem ouso antever a obra acabada

Feita da peça quebrada

Da outra mantida

Da inesperada composição

Por vezes surpreendente

Por outras, lamentavelmente

Incompleta nas peças achadas.

E. peça por peça, parte por parte

Remonto o mural

Sem conhecer a forma final

Me reservando surpresas

Abrindo caminhos, deixando afinal

Que não sejam presas na forma

As presas fáceis, as normas, as regras

E, de quebra, quebro a norma,

Refaço a regra e volto à obra

Peça por peça, parte por parte

Como se houvesse um caminho formal.



Escrito por Ruy Villani às 09h23
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Estatísticas

Tudo começou com uma pequena curiosidade hoje. Por estar estressado, tive um pouco de extra-sístole, uma coisinha para a qual nenhum cardiologista dá bola. È uma pequena falha no ritmo cardíaco que faz um bim falhar entre dois bums.

 

Assim resolvi contar quantas vezes meu coração já bateu. Cheguei a um número fantástico! Meu coração já bateu (aproximadamente, é claro) dois bilhões e trezentos e setenta e cinco milhões de vezes! Vai bater algumas mais enquanto vc lê este texto (espero).

 

Por tantas vezes se acelerou de medo, por tantas outras de ansiedade e por muitas de paixão. Estas últimas as melhores.

 

Movido por números tão estranhos resolvi fazer umas continhas. Afinal, para quem trabalha com planejamento, números são essenciais e fazem parte da vida.

 

Já vivi 20,500 dias, cerca de 500.000 horas, das quais dormi cerca de 140.000 e as outras estive acordado. Muitas de insônia e a revelia!

 

Adoro dirigir, mas faço isso apenas na medida da necessidade e do lazer possível.. Já dirigi automóveis por cerca de 700 mil quilômetros, nos quais consumi cerca de 110 mil litros de combustível. Pela alta taxa, dá p’ra perceber que alguns foram carros movidos a álcool.

 

Já comi cerca de 25 toneladas de alimentos, e continuo magro.  Como ninguém é de ferro, também tomo umas de vez em quando. De destilados, tomei cerca de 220 mil doses, algo perto de 11 mil litros. Com cerveja, sempre fui mais moderado. Foram aproximadamente 14 mil garrafas ou 30 mil latas (incluindo o chopp). Ah, se eu guardasse o vasilhame para vender ou reciclar... estaria rico!

 

Trabalho desde cedo. Descontando as horinhas improdutivas, cheguei a cerca de 85 mil horas de trabalho, que se contadas a preço de consultoria, dariam uma bela fortuna.

 

No entanto, só com a educação de meus filhos, gastei mais de meio milhão de reais. Ou seja, do que ganhei em cada hora trabalhada em toda a vida, paguei mais de R$ 6,00 só para educar os filhos. Isso fora os impostos, o condomínio, as caixinhas, as pequenas extorsões de flanelinhas e tantas outras pequenas incursões em meu minguado cofre.

 

Já que falei em filhos, permita-me lembrar que duas vezes nesta vida minha semente frutificou. Adoro meus filhotes (já adultos) e estou prestes a ter um neto, comprovando a teoria que diz que sexo é hereditário. Se seus pais não fizeram, suas chances são péssimas.

 

Em termos de sexo, não sou nenhum recordista. Modestamente falando, devo ter tido pouco mais de cinco mil bons momentos (a dois, fique claro) consumados. Aqui um pequeno orgulho. A absoluta maioria das vezes, acima dos 99,5% feitos com amor. Não consigo somar mais do que duas vezes com profissionais e pouco mais do que 20 vezes embriagado (contando as profissionais). Uma boa marca se olharmos os números do álcool dois ou três parágrafos acima.

 

Agora, me pergunto: com tantas horas de “brevê” da vida, serei eu ainda obrigado a me proibir a pouca que me resta? Quem concorda? Quem contesta?

 

Responda se for capaz!



Escrito por Ruy Villani às 09h13
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Escrito em 1993

 

 

Não ouso calar a cidade de seus gritos blásfemos e inoportunos. Nem ouso gritar como ela da varanda, da janela, da passagem qualquer que nos comunica. Apenas ouço o silêncio experiente dos fícus, dos umbus, dos ipês, que de há tanto tempo filtram e depuram os rugidos e os hálitos da cidade e, em sua ingênua maldade, nos desnudam enquanto nos fazem ocultos.

 

Também não ouso invocar a gente boa e passada, das notícias que nos surpreendem e amargam, nem também as almas puras que, acidentalmente, deixei de conhecer a tempo e de cujos conselhos e atenção ainda preciso e prescindo enormemente.

 

Não tenho, em essência, ousadia nenhuma que faça mover uma folha, posto que as folhas se movem por si no outono cansado e, assim, não me cabe o direito discutível da interferência.

 

Declaro, e apenas declaro, um intenso e legítimo amor extemporâneo que nada pede, nada exige, nada condiciona senão a beleza inexorável intrínseca a si próprio e, por ser de tal forma inevitável, resiste, permanece e reconhece, resignado, sua incapacidade de germinação imediata que, ingrata, se traduz como um espelho.

 

Então, envergonhado, busco o sono como quem, errando o passo, caísse justo no terror de um simples susto e, por estar só, procurasse o próprio colo.

 



Escrito por Ruy Villani às 05h25
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Anjos encarnados

Não permita que seus anjos encarnem.

Encarnados, anjos perdem o seu lume.

Se mortais, anjos abdicam da agelitude

E se enrascam no pior dos sentimentos.

E assim, chegam a sentir ciúme.

 

Foi-se o tempo do maniqueísmo

Bons e maus, agora sei, é aforismo

São os mesmos anjos bons que se rebelam

E os maus, anjos menores, vêm à tona

 

Anjos são isso só: anjos pendentes,

Iminentes, nunca anjos verdadeiros.

Os primeiros querubins anunciados

São malvados como só foi Belzebu.

 

Anjos são, pois, referências primitivas

A cuidar de nossa insônia, nossa sorte.

Madrugada, e meus anjos frios do norte

Me carregam, sem querer, p’ra sul do sul.

 

Que importa? Sejam anjos de verdade

A me oferecer, não o todo, só metade.

Ainda assim são anjos. Assim seja.

Que os perdoe esse Deus que não é nada,

Só vontade.



Escrito por Ruy Villani às 05h22
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